Série - Compreendendo a Lei de Deus (V)



Parte I- Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V

Na primeira parte de nosso estudo foi enfatizado que a obrigação de obedecer ao que a Lei diz não se refere exclusivamente ao que é dito explicitamente, mas também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente. Por isso é necessário meditação. Pra extrair todas as implicações do que cada mandamento diz. Não o basta simplesmente ler. É necessário refletir e meditar. “Bem-aventurado o homem que... tem seu prazer na Lei do Senhor, e na sua Lei medita de dia e noite”. (Sl 1.1-2)

Na segunda parte identificamos qual foi a crítica de Jesus contra os líderes judaicos de seu tempo. A crítica era que eles estavam continuamente buscando meios de anular a obrigação de cumprir a Lei de Deus. Eram reconhecidos como os grandes mestres da Lei em Israel. Mas na realidade eram os grandes transgressores. Sendo assim, precisamos ter o cuidado pra não cair no mesmo erro: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20)

Na terceira parte enfatizamos que toda a Lei é logicamente estruturada sobre os mandamentos do amor: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.(Mateus 22.36-40) ) Isso significa que nenhum mandamento da Lei pode jamais ser entendido como contrário ao amor, mas precisam ser entendidos como aplicações do amor. Diferentes pessoas definem o amor de diferentes maneiras. Mas o verdadeiro amor é definido unicamente pela Lei de Deus.

Na quarta parte argumentamos que a Lei continha diversos ritos, costumes e cerimonias que eram somente sombras e tipos que apontavam pra Jesus Cristo, tendo se cumprido nele. Mas é importante entender também com maiores detalhes o que cada uma destas coisas significavam. É bom lembrar aqui da importância de refletir e meditar na Lei. Precisamos entender com maiores detalhes cada coisa que Paulo cita aqui pra entendermos de que maneira a substância destas coisas ainda permanece entre nós.

Quanto a circuncisao, foi motivo de muita polêmica tão grande na Igreja Primitiva que pra resolver foi necessário um Concílio:

"Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. Tendo Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, os irmãos resolveram que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, por causa desta questão... Congregaram-se pois os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto". (At 15.1-2,6)

A circuncisão é a retirada da carne da genitália masculina. No Brasil costuma ser praticada por questões de saúde. Mas aqui é preciso entender que a polêmica não era meramente em torno da própria cirurgia. É preciso entender o que a circuncisão representava. Como ritual, a circuncisão foi estabelecida por Deus com Abraão:

"Disse mais Deus a Abraão: Ora, quanto a ti, guardarás o meu pacto, tu e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. Este é o meu pacto, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: todo varão dentre vugar para aquele que me Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio; e isto será por sinal de pacto entre mim e vós. Â idade de oito dias, todo varão dentre vós será circuncidado, por todas as vossas gerações, tanto o nascido em casa como o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua linhagem. Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; assim estará o meu pacto na vossa carne como pacto perpétuo. Mas o incircunciso, que não se circuncidar na carne do prepúcio, essa alma será extirpada do seu povo; violou o meu pacto". (Gn 17:9-14)

A circuncisão era o sinal do pacto. Isso tinha um significado duplo. Primeiro, a circuncisão externa apontava para a conversão interna - a circuncisão do coração:

"Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz".(Dt 10.16)

"Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios do vosso coração, ó homens de Judá e habitadores de Jerusalém, para que a minha indignação não venha a sair como fogo, e arda de modo que ninguém o possa apagar, por causa da maldade das vossas obras".(Jr 4.4)

"Também o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, a fim de que ames ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, para que vivas". (Dt 30.6)

Série - Compreendendo a Lei de Deus (IV)



Parte I- Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V


É importante entender também que a Lei continha diversos cerimonias, ritos e costumes que eram somente sombras e tipos que apontavam pra Jesus Cristo, tendo se cumprido nele. Os sacrifícios de animais estavam entre estas cerimonias. Os sacerdotes levitas eram os responsáveis por administrar tais sacrifícios. Mas estes animais sacrificados não tinham em si mesmos a capacidade de efetuar qualquer purificação ou expiação pelos pecados:
“Porque todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; pelo que era necessário que esse sumo sacerdote também tivesse alguma coisa que oferecer. Ora, se ele estivesse na terra, nem seria sacerdote, havendo já os que oferecem dons segundo a Lei, os quais servem àquilo que é figura e sombra das coisas celestiais, como Moisés foi divinamente avisado, quando estava para construir o tabernáculo; porque lhe foi dito: Olha, faze conforme o modelo que no monte se te mostrou. Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor pacto, o qual está firmado sobre melhores promessas”. (Hb 8.3-6)

“Porque tendo a Lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam”. (Heb 10.1)

Estes sacrifícios somente sombras do sacrifício expiatório na cruz do verdadeiro Sumo Sacerdote, Jesus Cristo. Se os sacrifícios fossem em si mesmos eficazes para resolver o problema do pecado humano, não haveria a necessidade de serem repetidos continuamente. A necessidade de repetição testificava para sua própria ineficácia:

“Doutra maneira, não teriam deixado de ser oferecidos? pois tendo sido uma vez purificados os que prestavam o culto, nunca mais teriam consciência de pecado”. (Hb 10:2)

Ainda assim, os sacrifícios eram representações proféticas – sombras - da expiação de Jesus, tendo a sua eficácia derivada dele somente. Ainda que Jesus Cristo não tivesse nascido ou sido crucificado, aqueles que viveram antes dele poderiam ter acesso aos méritos de sua morte por meio do sistema sacrifical. É por isso que Jesus é constantemente identificado como o Cordeiro de Deus.

“Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime que os céus; que não necessita, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez por todas, quando se ofereceu a si mesmo”. (Hebreus 7.26-27)

Com a vinda de Jesus Cristo não foi anulado aquilo que as cerimonias significavam. O sacrifício animal significava a remissão dos pecados. Mas os homens continuam recebendo remissão dos pecados. Apesar disso, nós não estamos mais sob a obrigação de sacrificar animais. O que o rito significava se cumpriu em Cristo. A essência do rito continua conosco, mas foi abolida sua observância externa. Isso é verdade não só para o sacrifício animal, mas pra todas as cerimonias da Lei:

“... e tendes a vossa plenitude nele, que é a cabeça de todo principado e potestade, no qual também fostes circuncidados com a circuncisão não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo; tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos; e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos; e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz. Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo”. (Cl 2.10-17)

Aqui Paulo fala de cerimonias, rituais e costumes que eram somente sombras e por isso não estamos mais sobre a obrigação de cumpri-las apesar de mantermos a essência. Ele cita como sombra: a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e as festas judaicas. Ele não cita aqui o sistema de sacrifícios, mas o principio é o mesmo porque a carta aos Hebreus fala dos sacrifícios (entre outros rituais da Lei) como também como sombras. Isso deixa claro que a circuncisão, as leis dietéticas, os sábados e as festas judaicas estão na mesma categoria do sistema sacrificial. Apontavam para uma realidade que já se cumpriu com a vinda de Cristo e por isso não temos a obrigação de guardar tais coisas.

Mas Isso não significa que a Lei tenha de alguma forma sido anulada. “Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum; antes estabelecemos a Lei”. (Rm 3.31) Apesar de não haver continuidade das cerimonias e ritos da Lei, ela não é anulada porque nós temos conosco o cumprimento do que tais ritos e cerimonias significavam. Como Jesus tinha dito no sermão da montanha: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir”. (Mt 5.17) João Calvino comentou:
“Mas agora que a coisa em si é dada para nós, não deve descansar por mais tempo nas sombras. De fato, a Lei não é abolida (Mateus 5.18; Efésios 2,15; Colossenses 1.14, 17); por isso temos de manter agora a substância e a verdade dela. Assim, a sombra é eliminada pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo...” (João Calvino, Comentário de Deuteronômio 5.12-14)

Série - Compreendendo a Lei de Deus (III)



Parte I- Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V


Pra começar a entender, precisamos considerar o que Jesus ensinou sobre os mandamentos mais importantes da Lei:

“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”.(Mateus 22.36-40)

Muitos acreditam que estes dois mandamentos foram inaugurados por Jesus. Mas isso não é verdade. Jesus foi interrogado sobre o grande mandamento na Lei. E ele respondeu citanda a Lei: “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te”. (Dt 6.4-7) “Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”. (Lv 19.17-18) Jesus ensinou que toda a Lei e os Profetas são logicamente dependentes destes dois mandamentos. Isso significa que nenhum mandamento da Lei pode jamais ser entendido como contrário ao amor. Isso significa que todos os mandamentos da Lei precisam ser entendidos como aplicações do amor.

Diferentes pessoas definem o amor de diferentes maneiras. O que a Lei nos dá é a definição Divina do amor. A definição do amor não é estabelecida pelo homem. O amor não é qualquer sentimentalismo humano baseado em sua mera preferência pessoal. O verdadeiro amor é definido unicamente pela Lei de Deus:

“A ninguém devais coisa alguma, senão o amor recíproco; pois quem ama ao próximo tem cumprido a Lei. Com efeito: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não cobiçarás; e se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De modo que o amor é o cumprimento da Lei”. (Rm 13.8-10)

Aqui o Apóstolo Paulo nos dá uma pista importância para compreender a estrutura da Lei. Jesus ensinou que “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19.17-18) é o segundo mais importante mandamento e que os demais mandamentos que regem as relações humanas precisam ser entendidos como logicamente dependentes deste. O que o Apóstolo faz aqui é a aplicação deste principio para explicar a proibição do adultério, do assassinato, do roubo e da cobiça. O mandamento de amar o próximo é uma exigência ampla. E as proibições de adulterar, assassinar, roubar e cobiçar definem o que o amor ao próximo significa. Se amamos então não assassinamos, não roubamos, não adulteramos nem cobiçamos o que é seu. Não inclui somente estas coisas, é claro. Há outros mandamentos que definem a relação interpessoal. Mas o ponto é que o significado do amor ao próximo é definido pela totalidade dos mandamentos que tratam do relacionamento interpessoal. Pra entender o que o amor ao próximo significa, precisamos meditar sobre a natureza de cada mandamento a luz do maior. Isso não é verdadeiro somente para o mandamento de amar o próximo, mas também para a definição do que significa amar a Deus.

A importância disso não pode ser subestimada. A objetividade da Lei de Deus é a única coisa que pode impedir que o homem seja entregue ao engano da subjetividade, do sentimentalismo de seu próprio coração. Um casal homossexual, por exemplo, poderá argumentar que eles têm o direito se casar porque eles se amam. E um adúltero poderá argumentar que ele trai sua esposa porque ele ama sua amante. Sem a objetividade da Lei de Deus, qualquer um define amor como bem entende.

É natural que todo cristão e toda igreja de alguma maneira fale da necessidade de santificação. Mas simplesmente mencionar a palavra santificação é fácil. Dizer que é preciso obedecer a Deus também é fácil. Até os escribas e fariseus falavam nisso. O grande teste é esse: Qual é o padrão usado pra definir o que é pecado e o que não é? Santificação significa viver em obediência a Deus. Mas qual é o padrão usado pra definir o que é justo e injusto, o que é pecado e o que é virtude? “Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20) Sem a objetividade da Lei de Deus, somos entregues as tradições humanas, ao sentimentalismo, ao misticismo e a tudo o que o coração corrompido do homem for capaz de inventar. Faça o teste na sua Igreja: você ouve explicações detalhadas sobre o significado e aplicação da Lei de Deus com a mesma frequência que ouve falar em santidade e obediência? E não basta falar de amor. Qualquer bêbado ou feiticeiro é capaz de falar em amor. Com que frequência você ouve o significado do amor sendo definido com objetividade pelos mandamentos de Deus? Se não ouve, há grandes riscos que sejam meros mandamentos humanos, mas não obediência a Deus.


Parte I- Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V


Em vez de refletir e meditar na Lei de Deus pra compreender e extrair as reais implicações do que ela diz, os escribas e fariseus estavam continuamente buscando meios de anular a obrigação de cumpri-la. Eram reconhecidos como os grandes mestres da Lei em Israel. Mas na realidade eram os grandes transgressores:

“Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaias a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem”. (Mateus 15.1-9)

A Lei de Deus manda que o homem honre seu pai e sua mãe. Isso é uma obrigação tão séria que amaldiçoar os pais foi classificado como passivo pena capital: “Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto; amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu sangue será sobre ele”. (Lv 20.9) A honra em questão envolvia a necessidade de sustentar os pais nos momentos de dificuldade financeira, especialmente na velhice. Mas os escribas e fariseus negligenciavam isso em nome de uma “causa santa”. Aquilo que seria usado pra sustentar seus pais era ofertado a Deus. Por ser uma oferta a Deus, acreditavam que estavam fazendo algo sublime. Mas Jesus não mediu palavras “Hipócritas!”. Obedecer a Deus significa fazer o que sua Lei manda e não inventar votos e ofertas por tradições que nos impedem de cumprir o que sua Lei manda. O que os escribas e fariseus mais queriam era uma demonstração pública do quanto eram piedosos e espirituais. O que eles queriam era a glória humana. O que eles não queriam era obedecer a Deus.

Foi por causa disso que no sermão da montanha Jesus avisou: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20) A maior problema dos escribas e fariseus era que “amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus”. (Jo 12.43) Todo sistema de religião do escriba e fariseu era centralizado na busca pela glória do homem. Sua preocupação não era o que Deus exige de nós, mas o que os homens vão achar. Por isso seu sistema moral não era fundamentado na Lei de Deus, mas em tradições humanas.

No final de sermão Jesus anunciou qual a diferença crucial entre os que verdadeiramente servem a Deus e os que somente chamam pelo seu nome, mas na realidade são iníquos: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus... Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. (Mt 7.21-23) No grego bíblico, a palavra lei é νόμος – nomos. Já palavra iniquo é ἄνομος – anomos - e iniquidade é ἀνομία – anomia. Iniquidade significa literalmente “sem lei”. A semelhança dos escribas e fariseus, os que praticam a iniquidade são aqueles que quebram, rejeitam e se opõe a Lei de Deus. Não importa se chamam pelo Senhor da boca pra fora. Se não fazem a vontade do Pai – revelada em sua Lei – serão rejeitados.

A necessidade de meditar na Lei nos leva a necessidade de compreender a estrutura da Lei. A necessidade de refletir e meditar na natureza de cada mandamento pressupõe a necessidade de compreender como cada mandamento se relaciona com os demais. Por vezes demais ímpios e crentes encaram os mandamentos bíblicos como uma mera lista de proibições desconexas cujo único objetivo aparente é nos privar de ser feliz. O motivo principal que faz a maioria pensar assim é que encaram os mandamentos da maneira isolada, não refletem na relação dos mandamentos nem nas implicações dos mandamentos para o bom funcionamento de toda Criação. O fato é que nenhuma proibição Divina existe arbitrariamente, mas é sempre a proteção de valores que foram positivamente estabelecidos por Deus. A proibição do homicídio, por exemplo, existe pra proteger a vida humana. Já a proibição do adultério existe pra proteger a instituição do casamento.


Parte I- Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.13-20)

Na analogia de Jesus o sal, a candeia e a cidade representam os homens. O sal pode salgar ou ser insípido e a candeia pode iluminar ou ser escondida. O sabor do sal, a iluminação da candeia e da cidade situada sobe o monte são equivalentes a “boas obras” (v. 16) que os homens podem vir a praticar. Já o sal insípido e a luz escondida são equivalentes aos que operadores da iniquidade que “para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (v.13).

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 19). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

A noção da Lei como padrão pra distinguir o bem do mal foi posteriormente ensinada pelo Apóstolo Paulo: ”eu não conheci o pecado senão pela Lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a Lei não dissesse: Não cobiçarás”. (Rm 7.7) E também: “o que vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) O Apóstolo João ensinou o mesmo: “o pecado é a transgressão da Lei”. (I João 3.4) A Lei nos revela o que é justo e o que é injusto, o que é certo e o que é errado, o que é o bem e o que é o mau, o que é pecado e o que não é. Quando a Lei diz “não cobiçarás”, está revelando que a concupiscência é imoral. O mesmo é válido para todo o resto.

É por isso que a Bíblia diz que a desobediência a Lei é a característica das pessoas carnais (Rm 8.7), que o prazer e a meditação na Lei do Senhor é a característica dos justos (Sl 1.2), que a Lei do Senhor no coração é o que faz dos homens justos e sábios (Sl 37.31), que são bem aventurados aqueles que andam na Lei do Senhor (Sl 119.1), que são soberbos aqueles que não andam segundo a Lei (Sl 119.85), que os que abandonam a Lei acabam louvando a maldade dos ímpios (Pro 28.4) e que Deus reconhece como abominável até mesmo a oração daqueles que não ouvem a Lei (Pro 28.9).

O primeiro Salmo chama de bem aventurado aquele que medita na Lei de Deus (Sl 1.2). Isso pressupõe que para compreender o significado da Lei não basta simplesmente ler os mandamentos. É necessário refletir e meditar sobre cada mandamento pra então compreender e extrair as reais implicações do que ele diz. Quanto maior for a meditação, maior será o entendimento; maior será a capacidade de discernir o bem e o mal. Como diz o Salmo 119: “Oh! quanto amo a tua Lei! ela é a minha meditação o dia todo. O teu mandamento me faz mais sábio do que meus inimigos, pois está sempre comigo. Tenho mais entendimento do que todos os meus mestres, porque os teus testemunhos são a minha meditação”. (Sl 119.97-99)

A necessidade de meditação existe porque o propósito da Lei não é revelar diretamente todas as circunstancias possíveis em que é necessário discernir o bem e o mal. Não há dúvidas de que “vem pela Lei é o pleno conhecimento do pecado”. (Rm 3.20) Mas isso não é sempre diretamente. Muitas vezes é indiretamente. A obrigação de obedecer ao que a Lei diz não se refere exclusivamente ao que é dito explicitamente, mas também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente. Por isso é necessário meditação. Pra extrair todas as implicações do que cada mandamento diz. Segue dois exemplos para deixar claro como isso funciona:

“Os presbíteros que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino. Porque diz a Escritura: Não atarás a boca ao boi quando debulha. E: Digno é o trabalhador do seu salário”. (I Timóteo 5.17-18)

Aqui o Apóstolo Paulo explicou que os líderes da igreja têm o direito de ser economicamente sustentados pelo trabalho que exercem. Ele cita dois textos bíblicos pra provar que o direito é real. O primeiro é um mandamento da Lei. “Não atarás a boca ao boi quando estiver debulhando”. (Deu 25:4) O segundo está no Evangelho de Lucas (Lc 10.7). Mas o mandamento da Lei fala de boi. Não fala nada sobre presbíteros. Como o Apóstolo Paulo poderia ter usado isso como base pra provar que os líderes da igreja têm o direito de ser economicamente sustentados? Porque a obrigação de obedecer ao que a Lei diz não se refere exclusivamente ao que é dito explicitamente, mas também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente. Explicitamente, a Lei diz que quando o boi trabalha ele tem o direito de ser alimentado. O boi não pode ser explorado. O boi tem direito ao seu “salário”. Mas os homens tem mais valor do que qualquer animal (cf. Mt 10.31, Lc 12.7). Consequentemente, um homem tem muito mais direito ao seu salário do que o boi tem o direito de ser alimentado. Segue-se então que o mandamento sobre não atar a boca do boi nos ensina que os presbíteros têm o direito de ser economicamente sustentados. E pra chegar a esta conclusão não basta simplesmente ler. É necessário refletir e meditar. “Bem-aventurado o homem que... tem seu prazer na Lei do Senhor, e na sua Lei medita de dia e noite”. (Sl 1.1-2)

“Quando edificares uma casa nova, farás no terraço um parapeito, para que não tragas sangue sobre a tua casa, se alguém dali cair”. (Deu 22:8)

Aqui Deus fala sobre a construção de um terraço em uma casa nova. O terraço não poderia ser construído de forma a trazer riscos de vida. A construção não poderia ser perigosa. O texto fala exclusivamente da construção de uma casa e não de qualquer outra construção. Mas se obrigação de obedecer ao que a Lei se refere também ao que é uma conclusão lógica e necessária do que é dito explicitamente, devemos entender que este mandamento faz uma exigência a toda construção e a qualquer situação em que as pessoas podem ser colocadas em risco de vida. A essência do mandamento é dizer que devemos zelar pela segurança de nosso próximo. O parapeito no terraço é somente uma aplicação circunstancial deste principio. Mas isso não é dito explicitamente. Pra chegar a esta conclusão não basta ler. É necessário meditar. Quanto maior a meditação, maior o entendimento; maior a capacidade de discernir o bem e o mal.

A casa edificada sobre a areia.




"Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramemnte: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade. Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras, e não as põe em prática, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa, e ela caiu; e grande foi a sua queda. Ao concluir Jesus este discurso, as multidões se maravilhavam da sua doutrina; porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas". (Mat 7:22-29)

Jesus falou de duas casas. Uma edificada sobre a rocha e outra edificada sobre a areia. As casas representam a vida dos homens. O homem que edificou a casa sobre a rocha é prudente. O homem que edificou a casa sobre a areia é insensato. Edificar a casa sobre a rocha significa colocar em prática as palavras do sermão que Jesus acabara de pregar. Edificar a casa sobre a areia significa ignorar as palavras do sermão que Jesus acabara de pregar. Não basta chamar Jesus de "Senhor, Senhor" se não praticamos o que ele diz. Se fazemos isso, ele diz que seremos rejeitados por ele no juízo final. Isto nos mostra que entender as palavras de Jesus é uma questão de vida ou morte. Pra entender, temos que voltar ao inicio do sermão:

“Vós sois o sal da terra; mas se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 5.13-20)

Na analogia de Jesus o sal, a candeia e a cidade representam os homens. O sal pode salgar ou ser insípido e a candeia pode iluminar ou ser escondida. O sabor do sal, a iluminação da candeia e da cidade situada sobe o monte são equivalentes a “boas obras” (v. 16) que os homens podem vir a praticar. Já o sal insípido e a luz escondida são equivalentes aos que operadores da iniquidade que “para nada mais presta, senão para ser lançado fora, e ser pisado pelos homens” (v.13).

Diferentes pessoas definem o bem e o mal de diferentes maneiras. Mas isso é somente consequência da ruína de Adão. A essência de todo e qualquer pecado consiste na ideia de que o homem possa estabelecer as suas próprias palavras, o próprio julgamento, a própria opinião, no lugar da Palavra de Deus. Em resposta a isso, Jesus avisou: “Não penseis que vim destruir a Lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da Lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido” (v. 19). O bem e o mal não podem ser definidos por homens porque o homem não é Deus. O bem e o mal são definidos pela Lei de Deus.

O homem como sal e luz remete a posição original de Adão quando foi criado por Deus. O homem foi criado pra dominar e governar a terra, conforme as habilidades e características concedidas a ele por Deus. O homem foi criado pra ser o sal da terra e a luz do mundo. Como Salvador do mundo, Jesus Cristo veio restaurar a humanidade ao seu propósito original. Por isso Jesus começou seu ministério publico “Arrependei- vos, porque é chegado o Reino dos céus”. (Mt 4.17) No sermão da montanha, Jesus marcou o inicio de seu ministério público chamando os homens a se a se voltarem em arrependimento para a Lei de Deus.

A comparação dos que guardam a Lei de Deus com a luz já havia sido feita no Antigo Testamento: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”. (Pro 4.18) “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho”. (Sl 119.105) "À Lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles" (Is 8.20) Como exemplo de sal insípido e a luz escondida, Jesus citou os escribas e fariseus. Eles eram reconhecidos em Israel como os grandes mestres da Lei. Mas a realidade é que eles eram os grandes transgressores da Lei conforme o próprio Jesus denunciou em outra ocasião: “Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição”?(Mt 15.1-3) Por isso no sermão da montanha, ele avisou: “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. (Mt 5.20)

Com isso em mente podemos entender melhor o que Jesus diz depois:

"Então lhes direi claramemnte: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade". (Mat 7:23)

A palavra "lei" é νόμος - nomos - no grego bíblico. Já a palavra "iniquidade" é ἀνομία - anomia. Signfica literalmente "sem lei". Isso significa que praticar a iniquidade, na definição de Jesus, era fazer como os escribas e fariseus: se opor e contrariar a Lei de Deus, revelada por Moisés e os profetas. Isso é o que Jesus ensinou que tem que ser feito. E quem não faz é o homem que edificiou sua casa sobre a areia.

Arminianismo a luz da Bíblia (IX).



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"Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9.14-24)

O problema do arminianismo é que ele busca impor em Deus conceitos da sabedoria humana decaída pelo pecado. A sabedoria humana decaída pelo pecado ensina que alguém só pode ser responsabilizado pelos seus atos no caso de seu ato ter sido determinado pelo livre-arbítrio do homem. O que essa suposta sabedoria não percebe é que, acreditando ser coerente, lógica e sábia e racional, ela é na verdade incoerente e irracional. A idéia de que um homem só pode ser responsabilizado pelos seus atos quando seus atos forem praticados pelo uso do seu livre-arbítrio é primeiramente tola porque ela é anti-bíblica. Deus é o único que determina verdadeiramente aquilo que as coisas são. Qualquer idéia que seja contrária ao que Deus diz, é, portanto, automaticamente irracional de acordo com o Salmo 14.1. A idéia de que o homem só pode ser responsabilizado pelos seus atos se os seus atos forem feitos pelo uso de seu livre-arbítrio não é somente anti-bíblica, mas é completamente irracional (como tudo o que é anti-bíblico).

O primeiro motivo é porque a idéia de que alguém só pode ser responsabilizado por aquilo que escolhe por meio de seu livre-arbítrio se baseia na existência de algo que não existe que é o livre-arbítrio. Mas a verdade é que se o livre-arbítrio existisse, aí sim, ninguém poderia ser responsabilizado por nada. Pra entendermos isso, devemos primeiramente relembrar e realmente compreender o que essa idéia significa. O que “livre-arbítrio” significa é que os atos das pessoas em determinado momento poderiam tender tanto para uma escolha quanto para a escolha contrária. Significa que quando uma pessoa escolheu X, naquele exato momento ela poderia ter escolhido Y. Mas se fosse verdade que no momento em que uma pessoa escolhesse X, naquele exato momento e sob as mesmas circunstâncias ela poderia escolhido Y, isso significaria que os atos das pessoas não seriam determinados por sua vontade, por sua personalidade e por aquilo que elas são. Isso significaria que a vontade, a personalidade e aquilo que uma pessoa é não teria influencia nenhuma sobre aquilo que ela faz. Se alguém mata uma pessoa por dia, nós sabemos que ela é uma assassina. Se um homem namora outro homem, nós sabemos que ele é um homossexual. Se alguém compra Coca-Cola todo dia pra beber, nós sabemos que a sua característica pessoal é ter algum tipo de vontade de beber Coca. Nós sabemos disso porque no fundo nós sabemos que o livre-arbítrio não existe. Nós sabemos que os atos das pessoas são determinadas diretamente por suas características pessoas que por sua vez determina as suas vontades. Se uma pessoa no momento da escolha, escolher X, isso é somente porque essa é sua vontade maior é essa. E se sua vontade maior naquele momento era X, isso significa que ela não tinha livre-arbítrio pra escolher Y, pois pra que a escolha de Y fosse possível, a sua vontade teria que ser por Y e não por X. A vontade do homem nunca é livre pra escolher duas coisas ao mesmo tempo. “Vontade” é, por definição, a determinação de escolher uma opção especifica. Isso significa que a opção contrária é impossível de ser escolhida.

E se a vontade de uma pessoa no momento de suas escolhas não determinasse necessariamente a sua escolha, como então a pessoas poderia possivelmente ser responsabilizado por ter feito aquilo? As pessoas só podem ser responsabilizadas pelos seus atos porque os seus atos são determinados por sua vontade, sua personalidade e por quem ela é. As escolhas não existem no vácuo, sem causa nenhuma. Toda escolha que alguém efetua é determinada por sua vontade maior na circunstância em questão. Toda escolha é diretamente causada pela vontade maior do homem. E a vontade do homem, por sua vez, é determinada pela sua personalidade, por aquilo que ele é. Se as escolhas existissem no vácuo, sem uma determinação necessária da vontade do homem naquele momento, impossibilitando uma escolha contrária, isso significa que as escolhas não teriam causa nenhuma na pessoa que escolhe. E se alguém não é a causa de uma escolha, então o que é? Se alguém não é a causa direta de sua escolha, aí sim, ela não pode ser responsabilizada por aquilo que ela faz.

Se as pessoas realmente tivessem livre-arbítrio, se os atos das pessoas fossem livres daquilo que elas são, de suas vontades, podendo até ser contrária ao que elas são e contrárias as suas vontades, então nós viveríamos em um mundo completamente insano por sua imprevisibilidade Se você fosse visitar a sua mãe amanhã, por exemplo, você não poderia saber se ela ia te abraçar ou se ela iria te esfaquear ou se ela iria tentar pular do telhado da casa. O motivo pelo qual a maioria das pessoas sabem que suas mães não irão tentar esfaqueá-los é porque eles no fundo sabem que suas mães não tem livre-arbítrio pra tentar esfaqueá-los. Pra que alguém tente assassinar outra pessoa, é preciso primeiramente que existe algum tipo de raiva e ódio contra aquele que se quer matar. Como a maioria das mães amam seus filhos, elas são incapazes de cometer o ato de procurar assassina-los. A vontade de mães que amam seus filhos é dar carinho a eles. Por esse motivo escolhem abraça-los e não mata-los.

Mas alguém ainda poderá dizer: “Tudo bem, tudo bem. Eu posso até aceitar que a maioria de nossas escolhas são diretamente determinadas por nossas vontades que por sua vez são determinadas por nossa personalidade, por nosso caráter, por aquilo que nós somos. Mas eu não acredito que as nossas escolhas são sempre determinadas por nossas vontades. Muitas vezes nós fazemos aquilo que não queremos quando somos forçados a isso!”

É verdade que em certo sentido nós nem sempre fazemos aquilo que mais temos vontade de fazer, no caso de sermos forçados a alguma coisa. Mas esse não é o sentido em que foi descrito acima. O que foi descrito acima é que nós sempre fazemos a nossa vontade maior dentro das escolhas que nos é oferecida. Todos os nossos atos são necessariamente determinados por nossa vontade maior, mas isso dentre as escolhas oferecidas. A minha vontade maior nesse momento, por exemplo, pode ser viajar para Nova York. Mas isso não está dentre as minhas escolhas possíveis. Nesse momento a escolha que está diante de mim é somente entre continuar escrevendo ou parar de escrever. Dentre a opções que estão diante de mim é que eu necessariamente faço a minha vontade maior, determinada pelas circunstâncias, minha personalidade, minhas características, etc. Quando um ladrão pára alguém na rua, aponta uma arma e manda dar o dinheiro, podemos dizer que a pessoa entrega o dinheiro contrário a sua vontade. Mas isso foi contrário a sua vontade maior somente fora das escolhas naquele momento. No momento do assalto, essa é uma opção que não existe. As únicas opções no momento do assalto é entregar o dinheiro, reagir ou se entregar pra morrer. A escolhe do que será feito vai depender se a vontade de manter o dinheiro é maior do que vontade de não correr o risco de morrer reagindo. Mas se o livre-arbítrio realmente existisse, nós teríamos que cogitar a possibilidade do sujeito sendo roubado ter a vontade imensamente maior de entregar o dinheiro e não reagir, mas misteriosamente reagir sem causa nenhuma naquilo que ele próprio deseja fazer.

O que precisamos entender é que todo efeito tem uma causa e toda causa é o efeito de outra causa. As ações do ser humano, as suas vontades, os seus desejos, serão todos determinados por aquilo que as pessoas são e não por aquilo que elas não são. O que as pessoas são, por sua vez, é um desenvolvimento daquilo que foi gerado pelos seus pais, desde o ventre da mãe. São as características herdadas no ventre materno que irão determinas como a pessoa irá reagir às circunstâncias que enfrentará, em suas escolhas e no desenvolvimento de sua personalidade, no decorrer de toda a sua vida, seja para o bem, seja para o mal. "Alienam-se os ímpios desde a madre; desviam-se desde que nasceram". (Salmo 58:3)

O livre-arbítrio, portanto, é somente um termo sem sentido. Não pode existir arbítrio livre pra seres finitos, pois o que os seres finitos são, é invariavelmente determinado por aquilo que lhe é a sua causa de ser. E são as características de seu ser, por sua vez, que determinarão as suas preferências em suas escolhas. Os homens não podem agir contrário ao que eles são, ao que está estabelecido em sua natureza: “pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas malhas? então podereis também vós fazer o bem, habituados que estais a fazer o mal”. (Jeremias 13:23)

Aqueles que são pecadores merecem a condenação por serem pecadores. O que os arminianos dão a entender é que as pessoas só podem ser julgadas por aquilo que elas são caso seja verdade também que elas próprias escolheram ser o que elas são. Mas isso é uma sugestão irracional. Pra que alguém escolha alguma coisa, é preciso que ela exista. E se ela existe, ela já é alguma coisa, antes que possa sequer escolher. Ninguém pode escolher o que é, pois para escolher é preciso já ser. A verdade é que responsabilidade não tem nada a ver com escolher o que vai ser pois isso nem sequer é uma afirmação que faça qualquer tipo de sentido. Responsabilidade tem a ver com assumir o que se é. Os pecadores que forem condenados serão condenados por serem pecadores, mesmo que o estado de pecado seja um fato herdado do ventre de suas mães. Os pecadores que forem justificados, serão pelo sangue de Jesus; não serão condenados porque o sangue de Jesus encobre a culpa pelos pecados.

Não há injustiça nenhuma da parte de Deus nisso. Injustiça consiste em privar alguém de seu direito devido. Quando Deus condena os vasos de desonra, ele não está condenando ninguém por aquilo que eles não sejam ou por aquilo que não fizeram. Ele está os condenando por aquilo que eles foram endurecidos pra ser: pecadores.

Deus seja louvado!
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